Vinícolas Gaúchas
Routhier & Darricarrère: tradição francesa, terroir gaúcho e vinhos com identidade na Campanha
Há vinícolas cuja história pode ser contada por meio de datas, hectares e garrafas produzidas. E há aquelas em que esses números são apenas o começo. A Routhier & Darricarrère, instalada em Rosário do Sul, na Campanha Gaúcha, pertence ao segundo grupo. Sua história atravessa gerações, países e culturas. Tem raízes familiares francesas, passa pelo Uruguai e encontra no Pampa gaúcho o lugar para construir uma interpretação própria do vinho brasileiro.

Há vinícolas cuja história pode ser contada por meio de datas, hectares e garrafas produzidas. E há aquelas em que esses números são apenas o começo.
A Routhier & Darricarrère, instalada em Rosário do Sul, na Campanha Gaúcha, pertence ao segundo grupo.
Sua história atravessa gerações, países e culturas. Tem raízes familiares francesas, passa pelo Uruguai e encontra no Pampa gaúcho o lugar para construir uma interpretação própria do vinho brasileiro.
É uma vinícola pequena quando comparada aos grandes produtores, mas justamente essa escala faz parte de sua identidade. A proposta está concentrada na elaboração de vinhos de qualidade, em lotes relativamente limitados, valorizando o terroir, a gastronomia e uma filosofia de produção que a própria vinícola associa às tradições do Velho Mundo e ao conceito de slow food.
Para entender seus vinhos, entretanto, é preciso começar algumas gerações antes da primeira videira plantada em Rosário do Sul.
Uma história que começa muito antes de 2002
A família Darricarrère é de origem francesa e carrega uma tradição de dez gerações ligadas ao cultivo da videira e à produção de vinho.
Os irmãos Pierre e Jean Daniel Darricarrère, franceses criados no Uruguai, chegaram ao Brasil na década de 1970 para estudar. Décadas mais tarde, essa trajetória acabaria encontrando um novo capítulo no interior do Rio Grande do Sul.
O projeto que daria origem à Routhier & Darricarrère começou efetivamente em 2002, em Rosário do Sul.
Curiosamente, a história brasileira da família não começou exclusivamente com uvas. Havia também um projeto dedicado ao cultivo de frutas cítricas. Foi nesse contexto que, juntamente com o canadense Michel Routhier, foram implantados seis hectares de Cabernet Sauvignon e Chardonnay.
Nascia ali o Vinhedo Routhier & Darricarrère.
O nome reúne justamente as famílias envolvidas naquele projeto e acabou se transformando na identidade pela qual a vinícola ficaria conhecida.
Era uma combinação bastante singular: experiência familiar europeia, vivência uruguaia, um parceiro canadense e um vinhedo estabelecido em pleno Pampa brasileiro.
Mas havia uma razão especialmente importante para escolher aquele lugar.
Rosário do Sul e o terroir da Campanha Gaúcha
Rosário do Sul está inserida na Campanha Gaúcha, uma das regiões vitivinícolas mais importantes do Brasil e reconhecida oficialmente, desde 2020, pela Indicação de Procedência Campanha Gaúcha.
A área delimitada da IP possui 44.365 km², está localizada no bioma Pampa e se estende aproximadamente entre os paralelos 29º e 32º de latitude Sul, próxima às fronteiras brasileiras com Uruguai e Argentina.
Essa localização não é apenas uma curiosidade geográfica.
Segundo a Embrapa Uva e Vinho, a Campanha é a região produtora de vinhos mais quente e com menor volume de chuvas do Sul do Brasil. O clima da área da Indicação de Procedência é classificado como subtropical.
Para a viticultura, isso importa bastante.
A videira responde diretamente ao ambiente no qual é cultivada. Clima, solo, disponibilidade de água, insolação, relevo e manejo interferem no desenvolvimento das plantas, no amadurecimento das uvas e, consequentemente, nas características dos vinhos.
É justamente dessa interação entre videira, clima, solo e ação humana que nasce aquilo que chamamos de terroir.
O Pampa dentro da taça
A paisagem da Campanha Gaúcha é bastante diferente daquela normalmente associada à vitivinicultura da Serra Gaúcha.
Em vez de encostas acentuadas e vales fechados, predominam grandes extensões de campos, áreas planas e terrenos suavemente ondulados.
Na área da Campanha existem diferentes formações geológicas e tipos de solo, portanto seria incorreto tratar todo o território como se possuísse um único solo ou uma condição homogênea.
O que existe é uma identidade regional construída pela combinação dos fatores naturais com décadas de desenvolvimento da viticultura.
Os vinhedos da região são tradicionalmente conduzidos em espaldeira, sistema que favorece a organização da vegetação e permite trabalhar a exposição dos cachos e das folhas ao sol.
A Campanha começou a receber investimentos vitivinícolas relevantes durante a década de 1980, mas foi especialmente a partir dos anos 2000 que novos projetos ampliaram a presença de vinhedos e vinícolas.
Foi justamente nesse momento de expansão que a Routhier & Darricarrère começou sua história.
Tradição do Velho Mundo, liberdade do Novo Mundo
A própria Routhier & Darricarrère define sua filosofia como uma combinação entre a tradição familiar do cultivo das videiras do Velho Mundo e a irreverência do Novo Mundo.
Essa frase ajuda a compreender a vinícola.
Existe respeito pela origem e pelo conhecimento acumulado durante gerações, mas não há uma tentativa de simplesmente reproduzir no Brasil aquilo que seria feito na França.
O objetivo é interpretar o lugar.
A vinícola fala também em savoir-faire, expressão francesa que, neste contexto, pode ser entendida como o conhecimento construído pela experiência, e relaciona seus vinhos à filosofia do slow food, à gastronomia e à conexão com a natureza.
Hoje, segundo informações da própria empresa, Patrick Darricarrère trabalha no vinhedo, Anthony Darricarrère atua na enologia e Julio Gostisa na área comercial e de marketing.
A capacidade instalada informada pela vinícola é de aproximadamente 40 mil garrafas por ano, com foco em vinhos de alta qualidade.
É uma dimensão que permite compreender por que determinados rótulos podem chegar ao mercado em quantidades bastante pequenas.
Cabernet Sauvignon e Chardonnay: as primeiras escolhas
As duas primeiras variedades plantadas no projeto brasileiro ajudam a contar outra parte dessa história.
Foram Cabernet Sauvignon e Chardonnay, duas das variedades francesas mais conhecidas internacionalmente e que encontraram espaço importante na viticultura da Campanha Gaúcha.
Com o desenvolvimento da vinícola, seu portfólio passou a abranger diferentes estilos, incluindo tintos, brancos, rosés e espumantes.
Atualmente, entre os rótulos apresentados pela própria Routhier & Darricarrère estão:
Espumante Brut ReD, Marie Gabi Chardonnay, Marie Gabi Rosé, CODENAME Chardonnay, Vinho Tinto ReD, CODENAME e Salamanca do Jarau.
Mais do que simplesmente formar um catálogo, essas linhas mostram diferentes interpretações que a vinícola faz de suas uvas e de seu território.
E um dos melhores exemplos dessa filosofia está justamente no topo de sua produção.
Salamanca do Jarau: o vinho ícone da Routhier & Darricarrère
O Salamanca do Jarau ocupa uma posição especial dentro da história da vinícola.
A Routhier & Darricarrère o apresenta oficialmente como seu vinho ícone, elaborado segundo um conceito que chama de “terroir extremo”.
Trata-se de um Cabernet Sauvignon proveniente de vinhedo único, ou Single Vineyard, produzido com uvas selecionadas das melhores parcelas da propriedade.
Sua elaboração envolve fermentação espontânea, sem adição de leveduras selecionadas, seguida de maturação em barricas de carvalho francês de segundo e terceiro uso.
Outro detalhe importante é que o Salamanca não é necessariamente produzido todos os anos.
Segundo a vinícola, ele é elaborado apenas nas safras consideradas adequadas para o projeto. Entre as safras já produzidas estão 2012, 2013, 2014, 2016, 2018, 2020, 2022 e 2023.
Na safra 2023, por exemplo, foram elaboradas somente 2.948 garrafas.
Isso ajuda a entender o significado de produção limitada nesse caso. Não se trata apenas de produzir menos garrafas como argumento comercial, mas de atrelar a existência do vinho às condições de determinadas safras e parcelas do vinhedo.
Quando o vinho encontra o folclore gaúcho
O Salamanca do Jarau também representa uma característica interessante da Routhier & Darricarrère: a disposição de aproximar vinho, território, arte e cultura.
Seu nome faz referência à Salamanca do Jarau, uma das narrativas mais conhecidas do imaginário e do folclore gaúcho, ligada à região de Quaraí, também na Campanha.
A história ganhou uma de suas formas literárias mais conhecidas na obra de João Simões Lopes Neto.
No vinho, essa ligação com o território vai além do nome.
O rótulo foi criado a partir da arte de Gelson Radaelli, artista gaúcho cuja obra passou a integrar visualmente a identidade do Salamanca.
Assim, um Cabernet Sauvignon produzido no Pampa carrega também uma narrativa cultural do próprio Pampa.
É uma maneira particularmente interessante de falar sobre terroir.
Porque terroir não precisa ser entendido somente como solo e clima. O conceito contemporâneo também reconhece a importância do conhecimento humano, das práticas desenvolvidas em determinado território e da relação construída entre uma comunidade e seu produto.
Nesse sentido, o Salamanca procura expressar Rosário do Sul e a Campanha tanto pelo vinho quanto pela história que sua garrafa conta.
CODENAME Chardonnay: outra face da vinícola
Se o Salamanca mostra uma interpretação da Cabernet Sauvignon, o CODENAME Chardonnay apresenta outro lado da Routhier & Darricarrère.
O vinho é elaborado com 100% Chardonnay, utilizando uvas selecionadas e colhidas manualmente.
Na safra 2022 divulgada pela vinícola, o vinho passou nove meses em barricas novas de carvalho francês de tosta média.
A produção daquela primeira safra foi minúscula: apenas 478 garrafas.
A proposta é de um Chardonnay estruturado, capaz de mostrar que os brancos também podem ocupar o espaço dos vinhos de guarda, gastronomia e maior complexidade.
A própria vinícola recomenda sua harmonização com pratos como salmão, bacalhau, frutos do mar, carnes brancas e massas com molho branco.
É um contraponto interessante ao Salamanca e ajuda a demonstrar a diversidade possível dentro de um mesmo terroir.
Os vinhos da Routhier & Darricarrère e a gastronomia
A relação com a mesa aparece repetidamente na filosofia da vinícola.
Isso faz sentido.
Vinho não precisa existir isoladamente como objeto de degustação. Acidez, taninos, textura, intensidade aromática, álcool e estrutura ganham novas dimensões quando encontram a comida.
No Salamanca do Jarau, por exemplo, a própria Routhier & Darricarrère sugere combinações com carnes vermelhas, carnes grelhadas, massas com funghi e risotos com molhos mais intensos.
No CODENAME Chardonnay, entram peixes, frutos do mar, carnes brancas e preparações cremosas.
Essa aproximação entre vinho e comida também conversa diretamente com a filosofia declarada da casa: produzir vinhos pensados para acompanhar a boa gastronomia.
Uma vinícola brasileira com sotaques de vários lugares
Talvez uma das coisas mais interessantes na história da Routhier & Darricarrère seja justamente a impossibilidade de defini-la a partir de uma única origem cultural.
Há França na história familiar.
Há Uruguai na trajetória dos Darricarrère.
Há Canadá na participação de Michel Routhier.
E há, sobretudo, Rio Grande do Sul no lugar onde essa história se transformou em vinho.
O resultado não é um vinho francês produzido no Brasil.
É vinho brasileiro.
Mais especificamente, vinho da Campanha Gaúcha.
A diferença é importante porque uma região vitivinícola ganha identidade justamente quando deixa de tentar imitar outra e passa a compreender aquilo que seu próprio território pode oferecer.
Campanha Gaúcha: uma origem que ganhou reconhecimento oficial
Em 2020, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial reconheceu a Indicação de Procedência Campanha Gaúcha.
Isso significa que o nome Campanha Gaúcha passou a ser reconhecido oficialmente como origem geográfica para vinhos que atendam às regras estabelecidas para a IP.
Não basta simplesmente estar localizado na região para utilizar o selo.
Os produtos precisam obedecer ao regulamento e passar pelos controles do Conselho Regulador para receber a atestação de conformidade.
A indicação contempla vinhos finos tranquilos brancos, rosados e tintos, além de espumantes naturais.
Esse reconhecimento é importante para todo o vinho brasileiro porque transforma origem em informação para o consumidor.
Quando uma garrafa carrega uma indicação geográfica, ela deixa de comunicar somente quem produziu aquele vinho. Passa também a comunicar de onde ele veio.
E isso coloca o território no centro da conversa.
Por que conhecer a Routhier & Darricarrère?
Porque conhecer vinho brasileiro também significa olhar além das regiões e marcas mais conhecidas.
A Routhier & Darricarrère representa um movimento particularmente interessante da nossa vitivinicultura: pequenas vinícolas buscando interpretar parcelas específicas, trabalhando com produções limitadas e transformando a própria origem em parte fundamental da identidade do vinho.
Em Rosário do Sul, a tradição francesa dos Darricarrère encontrou o clima da Campanha, o horizonte do Pampa e a cultura gaúcha.
Dessa mistura surgiram vinhos que podem ser bastante diferentes entre si, de espumantes e rosés a Chardonnay com passagem por barrica e Cabernet Sauvignon de vinhedo único.
Mas existe algo que os conecta.
O lugar.
Talvez essa seja também uma das melhores maneiras de começar a compreender o conceito de terroir.
Terroir não é uma palavra bonita colocada no contrarrótulo.
É a soma de natureza, conhecimento, decisões humanas, história e tempo.
E, quando tudo isso encontra equilíbrio dentro de uma garrafa, o vinho deixa de ser apenas uma bebida.
Ele passa a contar de onde veio.
No caso da Routhier & Darricarrère, essa história termina, ou talvez comece, entre os vinhedos de Rosário do Sul, no coração da Campanha Gaúcha.






